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Um dos temas ao longo dos encontros no processo de Aconselhamento Biográfico é nosso Genograma, um olhar para nossa hereditariedade. São tantas linhas que se cruzam até podermos surgir no mundo. Tão importante quanto saber de onde viemos e perceber quem de facto nos tornamos. Somos livres ou repetimos padrões?

Em 29 de novembro de 2019, tive reconhecido o direito à minha cidadania italiana. Ontem, o ESCRITA EM FAMÍLIA foi em causa própria. Eu, minha Tia Nena (acreditem, foram mais de 100 anos de alegria) e meus primos Antoninho e Beto nos reunimos para falar sobre meu bisavô Demetrio Andrea Maria Rapacci. Meu pai apreciava um provérbio que diz que “a melhor herança é a virtude dos pais”. A história que vou contar é a que sei sobre o pai do pai de meu pai. Demetrio Andrea Maria Rapacci nasceu em Borgoforte, Mantova, em 1869. Assim consta em seu registro em Torricella de Mottegianna. Filho de Marcella Rapacci, em sua certidão no nome do pai, apenas a palavra ignotto. Talvez eu nunca descubra de que tipo de história ele foi concebido, se por um segredo, uma ilusão ou desencontro, mas prefiro pensar que o milagre da concepção é sempre permeado de amor, sendo maior que suas próprias circunstâncias terrenas. Mais tarde sua mãe casou-se com outro pretendente e teve mais duas filhas. A fome parece ter assombrado sua infância e adolescência. Por isso, Demetrio Andrea, meu bisnonno, nunca foi de ficar parado. Onde havia trabalho, fosse na França ou na Espanha, disseram-me que ele ia. Um dia, a família de um amigo decidiu aventurar-se na promessa brasileira de uma vida melhor e o convidou para embarcar junto a eles. Sem idade suficiente e sem recursos para fazer uma viagem de tal porte sozinho, conseguiu o apoio do prefeito de sua cidade para atestar em um documento que o jovem poderia viajar. Meu bisnonno prometeu à mãe que trabalharia duro até conseguir mandar dinheiro suficiente para que ela, o marido e as irmãs fossem ao seu encontro. Em Genova, ele deixou a pátria Itália, levando-a no sangue, na cultura e costumes. Como tantos outros italianos, navegou por seis meses, em uma viagem que parecia sem fim. Testemunhou a morte e os mortos que iam sendo jogados ao mar, enquanto resistia seu sonho de uma vida mais próspera e abundante. Em 1891, pisou em solo brasileiro, no Porto de Santos. Ali, um detalhe que a muitos pode parecer defeito, fazia-me fantasiar a cada vez que eu ia buscar água na fonte da Piazza del Mercatto. O relógio parado, para mim, era um portal. Dias e dias eu sentia que o processo de reconhecimento da minha cidadania italiana era como voltar no tempo para que meu bisnonno, em paz, sem mágoa, pudesse voltar à sua pátria e à casa de sua mãe, para um abraço virtuoso, de amor e reconciliação.

No Brasil, seu primeiro destino foi a cidade de Itu onde foi trabalhar cavando valas que estabeleciam limites entre as terras e ainda fazia um serviço extra na estação de trem, além de consertar relógios e espingardas. Estudo? Não tinha, mas inteligência e bom senso pareciam não faltar! Depois arrendou terras para trabalhar nos cafezais como meeiro. Viveu depois em Bebedouro e em Monte Azul, buscando sempre uma vida melhor. Quando conquistou o dinheiro necessário para enviar à mãe para que a família viesse acompanhá-lo, recebeu do padrasto uma carta que o abalou profundamente, onde o marido da mãe dizia que o montante que receberam era suficiente para manterem-se muito bem na Itália e que ninguém viria para o Brasil. Ali, laços do passado foram dolorosamente rompidos, deixando-o silenciar sempre que lhe perguntavam sobre o passado. Porém, a vida, generosa, não o desamparou, provendo-lhe uma família de amigos: os Martinelli, os Crippa e tantos outros. Há uma história que circula a boca pequena que antes dos italianos chegarem ao Brasil, não havia namoro, só casamentos combinados. Mas a colônia italiana com sua alegria, sempre dava um jeito de aos sábados fazer uma boa festa, um bom baile. Foi assim que Demétrio Andrea conheceu Bárbara Gavasse, também italiana, com quem se casou em 1894. Meu bisnonno teve a sorte de um casamento harmônico e gentil. Não que fosse de beijos e abraços, mas era um homem amoroso ao seu jeito. Amoroso, forte e com um irresistível bigode! Fazia questão de comer, diariamente, cinco gemas de ovos. Para não haver , minha bisnonna fazia sempre suspiros. Brincavam entre si: “eu gemo, você suspira”. Assim, nasceram onze filhos: Vitório, José, Amélia, Aurora, Eduardo, Romilda, Natal, Ermínia, Rinaldo, Eugênio e Maria, que em 2020 completou 100 anos de alegria! Nas terras da Fazenda do Córrego do Pavão, na cidade de Jaci, Estado de São Paulo, Demétrio Andrea conquistou com muito trabalho a vida que almejava. Mais do que isso: além das próprias terras e seu cafezal, a bênção de ter a prole consigo até que se tornassem homens e seguissem com a própria vida.

Pelas histórias que ouvi, sei que o menino de pai ignotto foi um grande pai, sogro, avô e bisavô e, em 1964, deixou o mundo cheio de saudades suas. Em 2019, quando ele completaria 150 anos, era a minha vez de fazer o caminho de volta e “atracar”, não em Genova, mas em Nettuno, cidade de muitos predicados que conquistou meu coração e onde tive a honra de ser “nata”, fazendo amizades que faço questão de cultivar ao longo do tempo.

Por estar na Itália, pude reverenciar meus antepassados, mas em Nettuno, vivi a minha própria história.


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