Divagações no ar

Atualizado: 2 de Mai de 2019

Que eu nunca deixe de me encantar com a janelinha... Assim que foi concluída a decolagem, meus olhos se voltam para outro lugar: a tela do notebook. Hoje é dia 30 de abril e ontem foi 29. Ao menos o calendário ainda está em ordem, mas estou atrasada neste texto que há dias pulsa em mim. Meu motivo é dramático, mas preciso falar sobre ele desde o incêndio da Catedral de Notre Dame.

Quando vi aquela torre ruir em chamas, busquei compreensão, lamentei a tristeza, “que pena”. De repente, do nada, eu me lembrei da minha avó paterna e fui tomada por compaixão.

Há uma morte que marcou profundamente a família de meu pai. Daquelas mortes fora de hora e lugar, fora do combinado.

Eu era um bebê de sete meses quando meu tio Carlão morreu em um acidente de caminhão que, após colidir na estrada, pegou fogo. Dele, só tenho uma imagem de foto 3x4.

Vó Pina, com quem todos dizem que me pareço, perdeu seu filho de 25 anos, carbonizado. Quando o pensamento me veio à cabeça, dei conta do quanto essa mulher deve ter sofrido. Até então, como neta, nunca percebi nela amargura, embora minha tia Lurdinha tenha me contado sobre a dor da mãe por toda a vida.

Na minha memória, ela era uma senhora forte e sorridente, sempre pronta para o trabalho e até para, destemidamente, matar uma galinha e botar seu pescoço para sangrar se fosse preciso. Ela morreu aos 72 anos, quando eu tinha 13. Acreditem se quiser, a causa foi uma infecção hospitalar no Sírio Libanês. Às vésperas de uma cirurgia na bexiga passamos uma noite rindo, falando bobagem. Ela viera de Lucélia para ser operada em São Paulo, por ser mais seguro. Eu estava muito grata porque havia esquecido um codeguim na panela (algo que meu pai via como iguaria) e deixei queimar, só me dando conta do estrago quando tudo já estava virando carvão.

Ao chegar em casa, papai quis me dar uma sova. Ela prontamente intercedeu. Neste dia, não faço ideia de onde estaria minha mãe e irmã, mas eu estava feliz de ter minha avó em casa, dormindo comigo no meu quarto.

Eu tinha oito ou nove anos quando ela passou uns dias em casa e fez uma força tarefa para me livrar de uma humilhante infestação de piolhos. Com ela aprendi a fazer e comer gemada com muito açúcar e a chamar cobertor de “bitoro”. Uma vez, por conta de uma das inúmeras brigas de meus pais, eu lhe fiz uma malcriação. Quando voltei a encontrá-la, estava receosa de uma bronca, mas tudo que recebi foi um abraço.

Sei que ela tinha muita afinidade com meu pai. Modéstia à parte, ele era the best. Minha tia Lurdinha contou sobre o gênio forte da vovó. Ela disse que vovô era mais doce, e por um bom tempo aquele núcleo familiar viveu em harmonia.

Voltando à vovó, na madrugada do dia 29 de abril de 1969, bem cedinho, tio Carlão e um ajudante foram fazer uma entrega de vinagre e álcool, itens que meu avô produzia e engarrafava. Na estrada, no trevo de Pirapozinho, aconteceu o acidente. Parece que foi às seis e meia da manhã ou nesse tempo chegou a notícia, não sei ao certo. Dizem que ele morreu na hora.

Quando eu era pequena, uma vez ouvi essa história. Gravei um detalhe mórbido que não quero compartilhar. Mas foi assim que o meu tio com mais de um metro e noventa, bonitão, fã de bailes em sítios e que segundo contava mamãe me segurava apenas com a palma da mão (e olha que eu já era fortinha), foi chamado para o andar de cima. Com sua morte, seu cão policial parou de comer, ninguém deu jeito na inanição. Ele ficava sentado ora no tapete do quarto, ora na cama de seu falecido dono. Assim foi até definhar e na minha fantasia pueril, foi fazer-lhe companhia. Quatro anos depois, foi vovô Eduardo faleceu vítima de um grave derrame.

Nessa família de italianos briguentos e belicosos, o amor e a admiração pelo Tio Carlão era uma unanimidade entre meu pai e meus tios, que acabaram separados na vida por conta da empresa familiar, da qual não sobrou pedra sobre pedra. O que era Saboroso tornou-se tóxico. Eu sinto muito.

Por favor, não me pergunte por que estou contando tudo isso, ou me julgue. Começou lá com o fogo na França, mas serviu para purificar as lembranças e amornar o coração. Talvez, como tantas vezes ouço nas Constelações Familiares, eu só queira dizer “que pena, sinto muito”.

Para concluir, um fato ressignificou a data para mim. Depois de quase um ano buscando certidões para pleitear o reconhecimento ao meu direito à cidadania italiana, foi no dia 29 de abril de 2019, que recebi pelo correio o último documento que faltava. Quanta gratidão!

Enfim, é isso. Eu te vejo Tio Carlão, eu te vejo Vó Pina e eu te vejo Marcella!

Marcella? Mas quem é Marcella? Posso contar numa próxima vez, mas agora vou fechar o note e me preparar para a aterrissagem.