Aos admiráveis coaches da minha vida

Atualizado: 7 de Jun de 2019

Em um domingo frio e chuvoso eu acordei mais tarde. Enquanto preparava algo para comer, escutei no rádio sobre a morte de alpinistas no Everest e me veio à mente uma postagem que recentemente circulou num grupo de amigos queridos. A mensagem, em tom generalista e irreverente, dizia “dica anticoach: todo cadáver no Monte Everest foi um dia alguém motivado, proativo e fora da sua zona de conforto“.

Ia reagir, em protesto, mas julguei que não valeria meu tempo. Lamentei no íntimo pela ignorância sobre o tema e pensei com meus botões: “sinto muito, cada um tem o coach que merece”.

Sou casada com um respeitado coach, que atua na área há mais de uma década e eu também já vivenciei o processo em duas situações muito especiais na minha vida, onde pude enxergar questões pontuais e práticas, dentro de um contexto específico, para que eu escalasse o meu Everest de dentro, meu Everest da alma...

Que triste essa banalização irresponsável de um processo tão rico e apoiador. A questão é como está sendo tratado. Associei com a indústria farmacêutica. Existem medicamentos valiosos, resultantes de muita pesquisa científica que, ao invés de serem usados para verdadeiras patologias (e reconheço seu valor por isso) têm sido consumidos para evitar os desconfortos pessoais que as crises de desenvolvimento humano nos convidam a superar. Como se fosse mais fácil tomar um remédio para dormir ao invés de olhar para o que, de fato, está afetando meu sono. Delegamos a um comprimido um trabalho que é nosso. Sou réu confessa com o que já vivi com remédios para emagrecer em uma época da minha vida. Eu queria que o remédio fizesse um papel que era meu.

Talvez a proliferação de profissionais oportunistas se dá também pelas pessoas que estão se deixando influenciar por fantasias que as tornem vencedoras, consumindo processos mágicos. Junto ao engano, o autoengano.

Conheço pessoas diferentes, de temperamentos e perfis distintos. Há quem ache o caminho do autoconhecimento uma balela e se resolve investindo na mesa de um bar, no encontro com amigos. Uns fazem da experiência uma troca rica e genuína. Outros, dão conta apenas do papo na superficialidade e no riso frouxo e oco. Há os religiosos que desfiam seus respectivos rosários e não necessariamente deixam-se tocar por uma graça. Outros simplesmente revelam sua espiritualidade em singelas ações. Existem os que frequentam todo tipo de curso de autoconhecimento, da cabeça aos pés, traz de cor aquilo que é, mas ainda não foi capaz de transformar a si.

Enfim, existem aqueles que, escolhendo um caminho de ampliação de sua consciência e coragem de encarar o que é preciso, preferem fazê-lo em boa companhia. É aqui que posso dizer sobre as experiências que vivi em meus processos, como coachee. Gente que estava ali para me ajudar a compreender minha própria bússola, encontrar, reconhecer meu potencial para que eu pudesse trazê-lo à tona, para que na minha escalada interior, eu mesma fosse capaz de acender meu fogo. Sou eternamente grata a essas pessoas por isso.

Contei e confiei em alguém ao meu lado, de mãos dadas, compartilhando descobertas e dando apoio até que eu me firmasse e equilibrasse para avançar, encontrando força ao encarar minhas vulnerabilidades.

Quanto e em quem você investe para lhe acompanhar em seu caminho é uma decisão pessoal e requer sim sua responsabilidade. Existem coachs e coachs, médicos e médicos, mães e mães...

Meu sustento e de meu marido vem do trabalho que sustentamos no mundo. Uma mão de duas vias, estudo e crescimento contínuos para facilitar processos humanos. A sorte de trabalharmos com o que amamos. Ofício que manteremos mesmo quando ganharmos sozinhos na megasena. Oxalá! Por quê? Porque não nos imaginamos felizes sem colocar nossos dons a serviço.

Quanto à morte, coragem! A morte anímica, vida-morte-vida, morte e renascimento fazem parte do processo de amadurecimento e desenvolvimento humano. É preciso diligência para deixar morrer o que tem de morrer, e deixar nascer o que tem de nascer.

Enfim, seja motivado ou entusiasmado, na sua zona de conforto ou fora dela, congelado ou em movimento, fica a dica para que possamos olhar para o melhor de nós e nos equilibrarmos antes de encaminhar postagens generalistas, desrespeitando profissionais sérios e responsáveis.